“O terramoto - é assim que a generalidade dos analistas políticos e financeiros se referem a este fenómeno – que, nas últimas semanas surgiu como uma bomba no mercado financeiro norte-americano e que, em ondas avassaladoras vem varrendo e influenciando os restantes mercados mundiais, vai chegar, igualmente, a Portugal, apesar da pouca expressão do nosso mercado, por mais que alguns dos nossos responsáveis políticos persistam em querer convencer-nos do contrário.
E o terramoto não é tanto a falência de algumas das principais instituições financeiras americanas, mas o facto de as mesmas afastarem, ao que tudo indica, os Estados Unidos do primeiro lugar do pódio das grandes economias mundiais. Efectivamente, este ciclo que o sistema financeiro está a atravessar - e se manterá, segundo afirmam alguns especialistas, durante os próximos dez a quinze anos – é o tapete vermelho que conduzirá a economia Chinesa ao primeiro lugar do ranking mundial das economias e, por arrastamento, tornará este país na primeira potência mundial. Resta-nos esperar que os ventos de leste sejam de paz, na nova ordem mundial que se avizinha.
Efectivamente, por melhores que sejam os planos que venham a ser aprovados pelas autoridades governamentais americanas, a liderança dos Estados Unidos como a grande potência financeira está ferida de morte.
Preocupa-me, por isso, a pouca atenção que muitos dos nossos responsáveis políticos estão a dar a esta situação, o que contribui ainda mais para o descrédito do nosso regime democrático, que devemos, a todo o custo, preservar.
Em consequência de atitudes como esta, sou um dos muitos portugueses que acreditam cada vez menos nos nossos dirigentes políticos. Dirão eles que o mal está em nós. De resto, que assim pensam, demonstra-o o facto de, ciclicamente – em 2009, na sequência dos actos eleitorais que terão lugar, seguramente que irão, uma vez mais, fazer grandes exercícios metafísicos, na comunicação social, para encontrar explicação para o elevado abstencionismo do eleitorado – lermos e ouvirmos essas mesmas pessoas discorrer sobre as razões do elevado número de abstencionistas nos actos eleitorais e concluírem, invariavelmente, que a culpa é dos próprios abstencionistas, que trocam o gozo dum dia de praia ou de qualquer outro lazer pelo dever cívico de irem depositar o seu voto nas urnas, legitimando, assim, aqueles que, em geral, durante quatro anos, irão presidir aos destinos do seu país ou, simplesmente, da sua autarquia.
Ora, em meu entender, as razões do cada vez maior alheamento – e desprezo, mesmo -, dos portugueses pelos actos eleitorais é consequência da falta de credibilidade dos nossos políticos e autarcas, decorrente de actos e atitudes pouco nobres ou transparentes, que se vêm acumulando de há uns anos a esta parte.
O regime caído em 25 de Abril era acusado de promover uma ditadura feroz, que não desdenhava “triturar”, todos os se lhe opunham, ainda que ideologicamente próximos, como foi o caso do General Humberto Delgado – para, apenas citar o mais mediático dos dissidentes do regime - o enriquecimento de alguns, que viviam na opulência, em oposição a uma maioria que se arrastava na pobreza.
Regra geral, os protegidos do regime viviam no luxo e opulência, dando pouca atenção aos valores morais e às exigências cristãs dum pais maioritariamente católico e em que o catolicismo era a religião oficial do Estado.
Foi, por isso, natural e espontânea a adesão do povo em geral ao regime nascente com a dita “revolução dos cravos”, após 25 de Abril de 1974. Fui, desde a primeira hora, um desses portugueses e empenhei, generosamente, alguns dos meus anos na luta por princípios e ideais que acreditava puderem tornar este país no nosso “pequeno shangri-La”. Todavia, os comportamentos subsequentes de muitos dos nossos políticos, que, talvez por ingenuidade, julgava não serem possíveis no dito “pais de Abril”, depressa me transformaram num dos muitos vencidos da política e descrentes das promessas dos mesmos.
Com efeito, muitos dos que tinham estado contra a política e as atrocidades do antigo regime, face à degradação crescente do exercício dos cargos pela classe política actual, deixaram de acreditar nos mesmos, o que, em meu entender, está na origem do seu afastamento cada vez maior dos actos eleitorais.
Não tenho “engenho” nem espaço nesta página que me permitam uma grande dissertação sobre este tema. Rematarei dizendo que as muitas faltas de transparência e isenção de titulares de cargos públicos e autárquicos – para não falar dos crimes que lhes são, igualmente, imputados - frequentemente noticiadas na comunicação social levam-nos a este afastamento.
O preenchimento de lugares nos Ministérios e nas Autarquias por familiares dos titulares dos cargos políticos desses órgãos é uma realidade com que há muito somos confrontados e um dos muitos exemplos daquilo que não deveríamos ver.
Gere-se a “coisa pública” como se de uma mera empresa familiar se tratasse, esquecendo os interesses mais elementares dos administrados, que importaria defender acima de tudo.
O terramoto financeiro que vivemos é fruto da ganância sem limite dos tempos que vivemos, fomentada e erigida como sinónimo de sucesso nas nossas mais conceituadas universidades e religiosamente vivida pelas actuais classes politicas e gestores empresariais.
A gestão do Parque das Nações, não constitui nenhuma excepção a esta cultura do endeusamento dos milhões de lucro das empresas. O défice zero da Expo’98 tem sido o grande objectivo das sucessivas administrações da Parque Expo, por determinação ou com a cumplicidade dos responsáveis políticos e autárquicos, ainda que com sacrifício de alguma qualidade do projecto urbano e da vida daqueles que aqui vivem ou trabalham.
Recentemente, tivemos mais um exemplo claro desta cultura: a decisão de venda da parcela 4.72, onde está construído o Campo de Futebol.
Tal decisão, mereceu, obviamente a nossa discordância.
Com efeito, desde a sua construção pela Parque Expo, empresa que, apesar do seu estatuto de sociedade anónima, é constituída, integralmente, por capitais públicos, o referido campo tem sido utilizado por entidades sem fins lucrativos, e reconhecido, publicamente, como equipamento social público.
E esse estatuto deverá, obviamente, ser respeitado, porquanto a Parque Expo não pode ignorar, que este tipo de equipamento social público é comum às demais urbanizações de grande dimensão, como é o caso do Parque das Nações.
José Manuel Rodrigues Moreno
Presidente da Associação de Moradores e Comerciantes do Parque das Nações”
Artigo de opinião publicado na edição de 17 de Outubro do jornal Notícias da Manhã, Caderno Parque das Nações
