“Foi com muito agrado e, confesso, com algum orgulho que li a entrevista concedida pelo Eng. António Pedrinho ao Notícias do Parque de Julho, acerca do Office Park Expo.
Que se tratava de empreendimento de uma enorme dimensão, cujo contributo para tornar o Parque das Nações cada vez mais numa nova e grande centralidade da cidade Lisboa, é algo que há muito tinha apreendido. Efectivamente, a dimensão e altivez do projecto impõe-se ao olhar de todos aqueles que passam na zona ou o vêm das suas janelas.
Mas, tal como a generalidade dos que vivem, aqui trabalham ou, simplesmente, fruem o Parque das Nações, nas suas horas de lazer, desconhecia muitos aspectos revelados na referida entrevista e que fazem deste projecto “Uma obra ímpar na Europa”.
É, efectivamente, motivo de enorme satisfação tomar conhecimento de que este projecto se insere no caminho traçado por aqueles que um dia sonharam com a realização da grande exposição dos oceanos e que tiveram a audácia e o engenho suficientes para a tornar realidade, mostrando ao mundo que poderemos estar ao nível dos melhores.
Não me considero entre os mais conhecedores da matéria. Todavia, atrevo-me a dizer que, com este grande projecto de recuperação urbana que transformou esta outrora zona degradada no que é o hoje o Parque das Nações, a cidade de Lisboa rompeu, claramente, com o provincianismo de décadas anteriores, durante as quais, apenas existiram alguns rasgos de monumentalidade ou modernidade como foram os grandes projectos de Duarte Pacheco ou das Amoreiras, da autoria do Arq. Tomás Taveira.
Lisboa e o país precisam de obras desta envergadura.
E o Office Park Expo, suscitando, embora, alguma polémica, tal como sucedeu com os anteriormente referidos, está, do meu ponto de vista, na senda do progresso que os lisboetas desejam para a sua cidade.
Tenho, também, consciência de que sendo Portugal um país pequeno e com a economia frágil que todos conhecemos, obras desta envergadura, lamentavelmente, não poderão surgir de um dia para o outro como cogumelos.
Vão, simplesmente, aparecendo, de vez em quando, para manter viva a chama do orgulho nacional.
Mas na mesma entrevista são expressas opiniões sobre o futuro da chamada –“Porta Norte” – a estrutura de madeira sob a qual se processava a entrada no recinto pelo norte – e o descondicionamento ao trânsito automóvel da Alameda dos Oceanos, as quais, a menos que me sejam, de forma inequívoca, demonstradas as virtualidades do que se propõe, merecem a minha frontal discordância.
Vejamos.
Quanto à Porta Norte é um facto que a sua permanência exigirá manutenções dispendiosas. Eu próprio tive oportunidade de o dizer, há alguns atrás, a um responsável da Parque Expo, que sugeriu que nela fosse instalada a igreja do Parque das Nações. Independentemente da localização não ser adequada a um templo, a manutenção seria elevada e, por isso, desenquadrada dos princípios definidos pelo Patriarcado para a construção de igrejas. Tal sugestão não foi, obviamente, aceite.
Porém, estou do lado da Parque Expo quando esta afirma – as palavras são do entrevistado Eng. António Pedrinho - que a Porta Norte já existia antes do Office Park Expo. E, a menos que, como acima referi, me apresentem outros argumentos, não concordo que a Porta Norte venha a ser desmantelada.
Confesso, que, do ponto de vista estético, a Porta Norte nada me diz.
Todavia, a sua permanência, ao longo destes anos, colocou-a entre as referências da Expo’98 e, presentemente, do Parque das Nações.
Daí que resista a vê-la desmantelada e, quem sabe, transferida para a entrada do Parque da Cidade de Loures, fazendo companhia ao Pavilhão de Macau, também ele, não nos esqueçamos, uma estrutura com manutenções dispendiosas. Se formos criativos – e a Parque Expo já demonstrou que tem conhecimento e capacidade para o feito -, a Porta Norte poderá permanecer no local onde se encontra e nos habituámos a vê-la e ultrapassá-la nos últimos 10 anos.
O episódio acima referido, mostra que, já nessa altura, a Parque Expo, tinha consciência de que a referida construção deverá permanecer no lugar onde está, adequando-se, no entanto, a fins que permitam a sua manutenção ao longo do tempo, mas sem a descaracterizar em absoluto, ou seja, respeitando a sua traça actual.
E o que se está passar com a Torre Vasco da Gama, que a Parque Expo pretendia demolir, é um exemplo paradigmático de que, com vontade, é possível salvar estas memórias da Expo’98.
Considero que não devemos viver, tacanhamente, agarrados ao passado e aos símbolos que o representam. Na verdade, tem de haver equilíbrio nas nossas atitudes e acções. Mas quem esquece o seu passado não tem futuro. É que o futuro, do meu ponto de vista, deve ser pensado construindo o presente e tendo em conta o passado. E o passado faz-se presente, nomeadamente, através destes símbolos.
É esse, de resto, o papel dos muitos monumentos presentes em todas cidades e vilas. E também eles têm custos de manutenção com os quais temos de conviver.
No que se refere ao pretendido descondicionamento da Alameda dos Oceanos, na chamada zona do recinto – que terá sido assegurado pela Parque Expo, com a aprovação do projecto -, discordo, em absoluto, por admitir que o mesmo possa ter o efeito contrário ao pretendido na já deficiente mobilidade do Parque das Nações.
É que uma das causas da deficiente mobilidade no Parque das Nações é o facto de o mesmo, em consequência de erros de gestão nas acessibilidades ao centro da cidade se ter transformado numa zona de atravessamento, nos sentidos norte/sul/norte.
Ora, estou em crer que o facto do troço central da Alameda dos Oceanos estar condicionado tem sido uma barreira natural ao incremento ainda maior do tráfego de atravessamento.
Retirar os “cubos” e “pinázios”, como se pretende, equivalerá a transformar uma azinhaga numa auto-estrada com duas faixas de rodagem em cada sentido, que será, desde logo, conquistada por esse tráfego de atravessamento, com consequências negativas acrescidas sobre o trânsito local. E será o abrir do caminho à remoção de outro símbolo da Expo’98 – os vulcões de água - , para dar lugar a mais uma faixa de rodagem em cada sentido.
Vivemos tempos num país onde está cada vez mais enraizada a ideia de que o asfalto das ruas é para os automóveis circularem, os passeios para estacionarem e os peões que vão para os “anjinhos”.
Discordo, por isso, em absoluto, duma tal solução e lamento que a Parque Expo tenha assumido compromissos nesse sentido, como afirma o Sr. Eng. António Pedrinho.
José Manuel Rodrigues Moreno
Presidente da Associação de Moradores e Comerciantes do Parque das Nações”
In Notícias da Manhã, edição de 8 Agosto de 2008 (Caderno Parque das Nações)
“Que o povo português é muito avesso ao cumprimento das normas, sejam elas jurídicas ou, meramente, comportamentais e de convivência em sociedade, é algo há muito assumido. Diria, mesmo, interiorizado por cada um de nós. E de tal maneira o é, que esta já tradicional postura social entrou no anedótico nacional.
E os exemplos – maus, entenda-se - , deste posicionamento são dados, desde logo, pelos mais altos órgãos do Estado. Quem tiver dúvidas, que veja, nomeadamente, as largas dezenas de Leis da Assembleia da República que, em cada legislatura, não chegam a entrar em vigor, por exemplo, por omissão legislativa da sua regulamentação.
Mas os exemplos não se ficam por aqui e, em geral, com prejuízo para os cidadãos.
O Parque das Nações, é, de resto, vítima há oito anos deste tipo de atitude por parte da Autarquias, Governo e Assembleia da República, como já, por mais de uma vez, referi nestas páginas. E nós, moradores, comerciantes e empresários, vamo-nos conformando com este estado de coisas, porque, em boa verdade, como costuma dizer-se, “quem tem telhados de vidro não deve atirar pedras para o telhado do vizinho”. Ou seja, se cada um nós, em muitas circunstâncias da nossa vida diária, procura fugir ao cumprimento das normas de comportamento ou legais, também aceitamos, como alguma naturalidade, estas omissões daqueles que nos governam.
Não me causa, por isso, surpresa a violação clara das normas contidas na legislação e nos Regulamentos dos Planos de Urbanização e Pormenor do Parque das Nações, por alguns moradores e comerciantes, traduzida, nomeadamente, na colocação de antenas parabólicas em varandas, aparelhos de ar condicionado, afixação de publicidade nas paredes de edifícios e papeleiras, entre outros locais – como recentemente sucedeu com uma empresa imobiliária -, não recolha dos dejectos dos animais de estimação que levamos a passear à rua, ocupação desregrada de espaços públicos com esplanadas, para só dar alguns exemplos.
E, salvo poucas excepções, nenhum desses moradores ou comerciantes foi incomodado pelos seus vizinhos, por tomarem atitudes que contrariam a qualidade que todos dizemos desejar no Parque das Nações. Nem, tão-pouco, as Autarquias ou a Parque Expo tomaram a iniciativa de punir os infractores e exigirem a reposição da legalidade. E compreende-se que o não façam, pois também elas são, como repetidamente temos dito, violadoras de normas importantes relativas à gestão urbana do Parque das Nações.
Ainda há um ano, “pela surdina”, no início do período de férias, fomos brindados com a colocação de quatro antenas de telecomunicações da Vodafone, em plena via pública, uma delas muito próxima da Escola Vasco da Gama e outra encostada, mesmo, ao pátio de recreio do Colégio “As Abelhinhas”, propriedade da Cooperativa de Habitação Colmeia - “devidamente licenciadas” pela Parque Expo. Manifestado o protesto da Associação e de alguns moradores e administrações de condomínios, junto desta empresa, das Câmaras Municipais, bem como de outras entidades, com poder de decisão sobre esta matéria, viemos a saber, cerca de um ano depois, que, pelo menos a Câmara Municipal de Loures já licenciou as antenas colocadas na área do seu concelho. Se dúvidas houvesse, ficámos, assim, a saber que o dinheiro da Vodafone é mais importante para a Parque a Expo e para as Câmaras Municipais do que a saúde pública ou a qualidade da paisagem urbana do Parque das Nações. Ora, não havendo certezas sobre o impacto das radiações sobre a saúde pública, como acontece no caso presente, mandam as regras que, por uma questão de prudência, se instalem os equipamentos que as emitem em locais tão afastados quanto possível das pessoas. Trata-se, obviamente, duma atitude que em nada dignifica a, igualmente, a própria Vodafone. Dela seria de esperar que conhecendo – como conhece – a discordância dos moradores sobre a localização das ditas antenas, procurasse alternativas mais aceitáveis, que, seguramente, existem. Tal como a este propósito já várias vezes disse, se nós hoje não dispensamos o uso dos telemóveis, temos de conviver com as antenas que nos fazem chegar os respectivos “sinais”. Mas devemos ser criteriosos e, sobretudo, prudentes na selecção dos locais para instalação das ditas antenas, o que, do meu ponto de vista – partilhado, de resto, pela generalidade dos moradores e comerciantes do Parque das Nações, não está a suceder no caso presente.
E, independentemente do impacto que a instalação das ditas antenas possa ter na saúde de cada um de nós, a verdade é que, do meu ponto de vista, as mesmas, pelo porte que têm e nos locais onde foram colocadas, constituem uma inaceitável agressão à paisagem urbana.
Mas o sentimento de impunidade que grassa na nossa sociedade, perante a violação de elementares normas jurídicas ou de outra natureza, faz com que estas decisões sejam tomadas e defendidas por essas entidades com a maior das naturalidades, apresentando-as, mesmo, como decisões do interesse dos administrados.
Estes são, em síntese, alguns dos muitos exemplos que podem ser dados e atestam a tese que venho defendendo.
Todavia, tenho para mim que esta forma de olhar as regras, estando embora muito entranhada na nossa forma de estar perante a sociedade, não é uma fatalidade.
Apelo por isso, a que cada um nós faça por cumprir as regras.
Efectivamente, depende, apenas, de cada um nós alterar tão inaceitável comportamento anti-social e revelador duma enorme falta de civismo.
Na verdade,
Porquê colocar antenas nas varandas ou fachadas de edifícios, se temos ao nosso dispor vários operadores que nos podem prestar esse serviço, com mais qualidade – poderá ser um pouco mais caro, é certo, mas, além do mais, tem, seguramente, superior qualidade – e sem agredirmos, visualmente, a paisagem urbana?
Que nos custa recolher os dejectos dos nossos animais dos espaços públicos – passeios, zonas verdes - onde, de resto, estão colocados muitos dispensadores gratuitos de sacos para efeito, onde os mesmos serão, igualmente, depositados?
Porque invadimos, em certos casos, excessivamente os espaços públicos com esplanadas dos nossos estabelecimentos?
Tem de haver um justo equilíbrio nestas coisas.
Finalmente, a estes, junto um outro apelo: se os cidadãos não cumprem as regras, aqueles que são seus guardiães, nestes exemplos que referi – a Parque Expo e as Autarquias de Lisboa e Loures – devem tomar a iniciativa de punir os infractores e exigir a reposição da legalidade.
Essa é uma obrigação de que não devem demitir-se, até por uma questão de exemplo cívico que delas se espera.
José Manuel Rodrigues Moreno
Presidente da Associação de Moradores e Comerciantes do Parque das Nações”
In Notícias da Manhã, Caderno Parque das Nações, edição de Julho de 2008